Sobre fuscas, dondocas e Hugo Chavez

Outro dia, diante do congestionamento intenso e do farol amarelo, brequei meu fusca para não bloquear o cruzamento. A dondoca que vinha atrás, em seu New Beetle, aquele fusca que não é fusca mas que justamente por isso custa o preço de uns 20 fuscas, entretida em seu IPhone com capinha de Pikachou, entrou com tudo na minha traseira.

Não mais de 20 e poucos anos, cabelos falsamento loiros que nem se vê em qualquer rua dos Jardins, placa comprada com o número do ano do seu brinquedinho: FNB 2008 (cuidado, afastem-se). Olhou-me com cara de entojo.  Exclamou irritada: "mas você parou!". Vendo meu espanto, me disse "tá, aconteceu algo?". Olhei para o para-choque completamente dobrado do meu pobre fusca: "tá, pega meu telefone". Me deu um número qualquer, um nome mais qualquer, e ainda ouviu dos motoboys (um tanto parciais a favor da bonita menina, eu achei) que eu "estava em cima da faixa": "os motoboys falaram, tenho testemunhas, ó, vou até tirar uma foto", disse, empunhando seu IPhone com ar ameaçador. 

Seus parcos neurônios não lhe permitiram avaliar a credibilidade de seus assessores como especialistas das regras de trânsito, nem perceber que se eu estava em parte na faixa era porque ela me lançou uns bons três metros pra frente, e menos ainda que, mesmo que estivesse, isso em nada tiraria dela a culpa pelo ocorrido. Poucos neurônios, mas o bobalhão que pegou o número errado, fui eu. 

Reclamou que eu não tirava meu velho fusca do caminho, assustou-se ao me ver tirando foto. "Tô com pressa; tira seu carro daí", disse com ar superior, feliz com sua esperteza e certa da sua impunidade. Na hora pensei em perguntar ao meu fusca se toparia dar uma ré inadvertida para afundar de vez a pedante frente daquele seu primo rico. Em vez disso, lembrei da Marilena Chauí, quando "estourou" em uma palestra, ao falar da classe média paulistana (clique aqui).

Pensei também se o pai daquela menina, um empresário? desembargador?, que deve ter lhe dado o carro, aprovaria o que ela fez. Se teria orgulho, se a acharia esperta. Se encobriria seu ato. Pensei se eu estivesse em um BMW, e não um fusca, se ela reagiria da mesma forma. Me perguntei o que ela pensaria se estivesse andando no acostamento no congestionamento da volta do litoral e matasse um pobre qualquer, um caiçara na sua bicicleta velha: "mais um idiota na minha frente como aquele tiozinho do fusca". 

A gente adora por a culpa nos governantes, nos políticos que elegemos, nas políticas que não funcionam. Mas em geral esquecemos de ver a parcela de culpa que é da própria sociedade. Das nossas "burguesias douradas". Intolerantes, racistas, antidemocratas, antissociais, homofóbicas, "pobrefóbicas", hiperconsumistas, fúteis. Antiéticas, ou melhor, aéticas. Que votam sempre no pior dos candidatos. Que querem levar vantagem em tudo: no trânsito, na vaga da garagem, na fila do que quer que seja, na declaração do imposto, na propina que pagam, na fraude da licitação, nos negócios escusos.

Fiquei pensando se nossa cidade, o nosso país, irão um dia funcionar, enquanto tivermos essas elites que temos. Que servem de modelo para os que vêm abaixo. Que educam seus filhos para se sentirem proprietários de seus bens fúteis mas também de tudo que não é deles, mas de todos. E perpetuam uma sociedade mesquinha que não sabe construir aquilo que é essencial para um outro mundo possível: a ética na conduta individual, a solidariedade para com os outros, a indignação com a injustiça.

Mas, no fim, pensei mesmo no Hugo Chavez, que morrera naquele mesmo dia. Aquele presidente que, segundo a Dora Kramer, no rádio, "sequestrou a democracia" na Venezuela, embora tenha vencido 4 eleições presidenciais e tenha sido o único a colocar em jogo seu mandato, por meio de um plebiscito. Infelizmente, nunca tive a oportunidade de ir à Venezuela. De verificar com meus olhos o que o Eduardo Galeano conta dele (clique aqui), ou Breno Altman descreve (clique aqui): 

"A Venezuela apresenta a sociedade com melhor repartição de renda da América do Sul, de acordo com o índice Gini, além do maior salário mínimo regional, atestado pela Organização Mundial do Trabalho.  Registra, na última década, o mais acelerado padrão de crescimento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do subcontinente, segundo relatório das Nações Unidas. Foi declarada território livre de analfabetismo pela Unesco, em 2006".

Uma vez, em um congresso no México, fiquei impressionado ao assistir a palestra de uma arquiteta do governo, mostrando os projetos de habitação social que estavam implementando na Venezuela. Apaixonada, engajada, completamente envolvida em um projeto cuja marca era indubitável: o respeito total à dignidade dos pobres.

Eu conheci a figura do Chavez vendo um filme, que todos deveriam ver: "A revolução não será televisionada" (clique aqui). Um documentário que mostra o dia em que a maior TV daquele país armou um golpe para destituí-lo. E o povo o reconduziu ao poder. Mas o que mais me impressionou ali não foi tanto o Chavez, embora seja marcante o fenomenal carisma que transparece no filme. O que me impressionou, foram as elites que ele enfrentava. Intolerantes, racistas, antidemocratas, antissociais, homofóbicas, "pobrefóbicas", hiperconsumistas, fúteis, e......golpistas. Nunca aceitaram que um governo se voltasse, em seu país, aos pobres. Elites que se parecem com os separatistas bolivianos que querem a independência da Rica Santa Cruz de la Sierra, para deixar a Evo Morales, outro "demônio" que governa para os pobres, o resto miserável do país. Elites que se parecem com os moradores de "La Zona", condomínio fechado fictício (será?) no México, e dá nome a um interessante filme em que ricos e pobres se enfrentam nessas nossas sociedades que não conseguem nem mais esconder sua perversidade social (clique aqui para o trailer).

Venezuela e Bolívia, ricos produtores de petróleo e gás, caíram em uma polarização radical entre riqueza e pobreza extremas. Aqui no Brasil, é certo que temos uma composição econômica e social diferente. Arranjos políticos mais complexos, forças econômicas mais variadas, matizes sociais mais diversas. Temos, supostamente, maior propensão ao diálogo, ao desenvolvimento com menos polarização. Mas a euforia do "milagre econômico" que nos coloca como a sétima economia mundial, não pode escamotear o fato de que ainda somos um dos campões da concentração da renda. E nossas classes médias ascendentes, embriagadas pelo consumo, tendem a crescer seguindo o padrão comportamental elitista. Ainda temos muito que avançar. Uma simples batida de carros em um farol paulistano pode ser uma prova disso.