O ataque à democracia e o enterro do Congresso

VoxPopuli de hoje dá Lula com....41% e o resto com 29. Lula está a ponto de levar a eleição no primeiro turno. Se deixassem.

 Pesquisa Vox-Populi/CUT, 26/07/2018

Pesquisa Vox-Populi/CUT, 26/07/2018

Mas a sanha das elites brasileiras é tanta que não percebem o que está no cerne da nossa crise: o desrespeito à democracia.

A estas alturas, já ficou mais do que evidente de que a condenação de Lula foi montada em cima de acusações inexistentes e forjadas por um juiz que, ao perseguir Lula e ao proteger seus aliados políticos, joga no lixo o importante trabalho de combate à corrupção real e desmoraliza o Brasil no exterior (leia aqui, entre muitos exemplos). Não bastasse a ocupação do triplex pelo MTST ter mostrado que nunca existiu reforma milionária, não bastasse as notas do suposto elevador feito por Lula, usadas por Moro, terem sido emitidas por empresa de amiga dele em Curitiba, não bastasse os desvios de dosimetria do TRF4, ou ainda o desespero de Moro para evitar um Habeas Corpus, saindo totalmente da legalidade (a lista de trapaças se estenderia demais para escrever aqui), hoje já são inúmeros artigos, textos de analistas (leia aqui), inclusive da grande imprensa, mostrando a fragilidade do processo. Até a Folha já deu editorial insinuando a fragilidade do processo.

Acharam contas no exterior, malas de dinheiro, gravações comprometedoras de todos mundo, todos livres, e de Lula nada. O próximo processo, do tal do sítio, já teve até coerção comprovada pela PF de uma mãe e seu filho de 8 anos, levados à delegacia sob mira de metralhadora, sem advogado, para forçá-los a dizer qualquer coisa que pudesse comprometer o Lula. É esse o padrão dos processos que estão acontecendo neste país que virou, de novo, a "República das bananas" que era o termo que se referia pejorativamente, nos anos 70, à republiquetas com pseudo-presidentes ditadores.

O problema é que as elites acham que tudo isso passa batido, dentro e fora do país. Dentro, está cada vez mais evidente para o povão a manipulação em curso. Estão aí as pesquisas para comprovar. Não dá mais para engolir tantas evidências de que se atropelaram todos os preceitos da justiça e da democracia, com o único intuito de evitar a volta de Lula. O que é mais estranho é que a racionalidade econômica não explica esse movimento. É só pegar qualquer base de dados para ver que nunca se ganhou tanto dinheiro nem nunca se cresceu tanto quanto nos governos de Lula, Itau e Bradesco que o digam. Lula respeitou a democracia, não qui mudar a constituição e se candidatar a um terceiro mandato quando tinha a faca e o queijo na mão, como o fizeram seus colegas em geral na América Latina (ou mesmo FHC, antes dele). Deu espaço para as forças armadas, para a indústria, as empreiteiras (até demais), trouxe os jogos, a copa, tudo que o empresariado gosta.

Então, por que tanta repulsa dos endinheirados? Duas razões me chamam a atenção, entre um milhão de outras possíveis: a primeira é, espantosamente, o medo do fim da corrupção ou, mais especificamente, da "liberalidade descontrolada" com que atua o mercado no Brasil, algo que Haddad apontou no programa de governo recém-apresentado, dizendo que no Brasil o empresariado precisa entrar na linha. Aqui, ao contrário das democracias liberais europeias, altamente reguladas, é o faroeste. Faz-se o que se quer, manda o mais forte. E acontece que Lula levou o número de ações da PF, que tinha sido de menos de 50 nos 8 anos de FHC, para mais de 1500 nos seus mandatos....além de reestruturar o MP e melhorar o marco legal de combate à corrupção, sem saber o quanto isso seria, depois, manipulado e usado contra ele mesmo. A sede com que o PMDB, que apesar de ser governo, estava sendo razoavelmente contido, saiu à caça de maracutaias assim que o Temer assumiu, Jucá e Cia à frente, nos dá ideia do que está em jogo. Pior, ao eleger o "poste" Dilma, Lula colocou uma sucessora ainda mais intransigente à corrupção, que sequer recebia os deputados para ouvir seus pedidos descabidos. Custou-lhe caro, e hoje o "impeachment" por causa de "pedaladas" que o mesmo congresso liberou meses depois para o presidente usurpador já não se sustenta, exceto como um golpe burlesco, junto à opinião pública internacional. Enfim, a volta de Lula é a volta do processo "civilizatório" que, se ainda está longe de ser perfeito, ameaça o desmando que hoje impera no ultra-liberado meio empresarial.

A segunda razão está na ordem da cultura social mesmo. É por puro preconceito de elite, aquela que não aceita que uma pessoa pobre que não fez faculdade, operário com um dedo a menos (lembrem-se sempre que Moro, nas redes sociais, apelidava Lula de "ninefingers") possa ser brilhante, possa se formar na vida, possa ler livros na prisão, e possa sim fazer um excelente governo, até mesmo para os mais ricos. A elite brasileira nunca engoliu isso, o príncipe da sociologia nunca engoliu que esse zéninguém fizesse um governo muito melhor que o dele, sem grandes mudanças radicais de modelo econômico, aliás.

Então, a estas alturas, a turma dos mais ricos, não a dos bobalhões que vestiram a camiseta da seleção porque a Globo mandou o "gigante acordar", mas a turma dos mais letrados, que teve acesso às boas universidades (públicas e gratuitas do país), de duas uma: ou é boba, acreditando que a justiça é inquestionável e que Lula é um grande ladrão culpado por todas as mazelas do país, ou está de má fé mesmo, fingindo-se de boba, repetindo perversamente, de forma proposital, a ladainha dos golpistas. Em ambos os casos está fazendo um papelão. Para essa gente, a democracia é boa para garantir sua formação pública e gratuita e seus privilégios, mas incomoda quando começa a se falar em universalizar tais privilégios. Não engole pobre pegando avião, frequentando universidade, e assim por diante. E para defender o que é seu, é capaz, até de fingir que não vê que seu país está sendo destruído. Não dá para contar o número de pessoas bem nascidas, bem formadas e bem informadas que repetem a ladainha da grande mídia sem o esforço de colocar um neurônio para pensar um pouco mais a respeito. Para eles, no fundo, dane-se esse papo de "democracia", coisa de intelectualiznho de esquerda. Até mesmo setores "de esquerda", aquela esquerda bem de vida que se olha no espelho como tal mas na verdade não consegue sair de um centrismo confortável, adora sair atacando "o Lula e a corrupção" em nome de candidaturas pseudo-"bom-menino".

E, nisso, chegamos à questão externa. Pois se internamente dá para fingir que tudo isso "passa batido", não é mais o caso no exterior. Por uma razão muito simples: países com tradição democrática ficam espantados quando vêem uma forçação de barra que vai além da disputa política do varejo, e começa a se contrapor ao que é mais sagrado na democracia: a vontade popular. E, na prática, o que assistem no nosso país é um candidato perto de, nas pesquisas, levar uma eleição no primeiro turno, ser mantido encarcerado. Nem sequer estamos falando que Lula deva ser inocentado, mesmo se seu processo é questionável. Mas minimamente que não se force a barra, mantendo-o preso por cima da lei, sem dar-lhe a chance de se candidatar. Ele ainda tem instâncias para ser julgado, como se sabe, a prisão em segunda instância é polêmica e dividiu o STF, que atrasa a votação da questão propositalmente, ou seja, há elementos claros para que, em respeito à vontade popular, se deixasse ele concorrer em liberdade. Até mesmo a Lei da Ficha Limpa, diante do fato que sua condenação em segunda instância se reverte de dúvidas processuais que mostram intencionalidade em impedir sua candidatura, e frente à massacrante popularidade, teria como ser contornada, já que prevê essa possibilidade em casos especiais, como é o caso. Com as intenções de voto que têm, o golpe escorre pelo ralo e a situação torna-se cada vez mais insustentável. Lula ainda goza de plenos direitos políticos, e por isso teria direito a se inscrever e fazer campanha, mas nem isso lhe é dado, em atropelo à lei. Aliás, é esse o argumento usado pelo desembargado Favreto, massacrado pela grande mídia e os golpistas de plantão: a novidade por ele alegada é que a campanha começou e Lula é, não adianta tapar o sol com a peneira, o candidato que se apresenta com expressiva vontade da maioria. Teria o direito de participar livremente do processo. Isso não havia sido posto até então, e está corretíssimo Favreto em indicar essa questão.

Esse atropelo do processo democrático é, sem dúvida, perigoso. Primeiro porque abre portas para qualquer desfecho não-democrático. Uma vez que se pode um pouco, pode-se tudo. Mas a questão é saber como reagirão os 41% dos eleitores que vão, com certeza, sentir-se roubados. Segundo, porque ao insistir em manter o golpe em marcha, consolida-se no país a ideia de que a democracia não vale nada. Esta semana, sem que os jornais falem a respeito (obviamente), alguns professores de esquerda foram intimados em uma sindicância interna na UFABC (leia aqui), vítimas de denúncia anônima que os acusava do terrível crime - em uma universidade, vejam bem - de promover um debate e um lançamento de livro sobre Lula. Nas perguntas da corregedoria, pérolas do tipo: "Durante o evento ocorreram manifestações de apreço por parte de servidores em horário de serviço a favor de Lula e partidos de esquerda?". A pergunta que não quer calar: se fosse de direita e a favor do Bolsonaro, poderia? Quando a universidade começa a ser calada, é sinal de que as coisas fugiram do controle.

Mas o que mais preocupa nisso tudo nem é a inacreditável e vergonhosa operação anti-lula, que é na verdade anti-democracia. O que mais preocupa é que com toda essa discussão, centralizada na figura da presidência e de quem ocupará o cargo, esquece-se das eleições para os parlamentos federal e estaduais. Não esqueçamos: o golpe no Brasil nasce da política de varejo, quando a perda de contrôle por parte de Dilma sobre a mesa da Câmara dá asas a um bandido, o Cunha, para chantageá-la. Se não o livrasse de seus problemas, ele levaria adiante o "impeachment". E foi o que ele fez, para a grande alegria do PSDB, Aécio e turma, que receberam com sorriso largo o presente que a guerra da várzea política lhes oferecia. Seguiu-se aquela vergonha internacional de deputados afundados na corrupção votando pelo afastamento da Presidente em nome de Deus, das famílias e do que mais lhes viesse à cabeça. Idem para os Senadores, que entraram na sequencia em uma fornicação de cargos e favores para votar pela continuidade do processo de impeachment.

Pois bem, é esa assembleia que estamos hoje prestes a renovar. E, se não a renovarmos com cuidado, nem Lula, nem Deus, nem ninguém poderá nos tirar da lama. Mas será que os brasileiros, obnubilados pelas manipulações da Globo, leitores crentes de Folhas, Estadões e Cia, que acreditam piamente na cruzada contra a corrupção na pessoa do Lula, que fazem de Moro seu herói fingindo não perceber seus abusos e seus flertes com o autoritarismo,  estão realmente prontos para, pela primeira vez, dar a importância devida ao Congresso que vão eleger? Não sei, porque ao acharem que a democracia não vale nada, não devem dar importância aos que a sustentam, ou deveriam, os deputados e senadores. Porque se se fazem de bobos quanto à perseguição ao Lula, porque iriam deixar de ser ainda mais manipulados e não continuar dando aval e poder a candidatos a deputados que fazem da política  seu meio de ascensão e poder pessoal e de defesa de interesses escusos, sem dar a mínima importância por ideais e a construção da democracia e da modernização do país? É por isso que está em marcha importante campanha, "Um novo Congresso: é necessário, é possível, e vai ser pelo voto", para a qual todos deveríamos atentar. Inteire-se sobre ela, clicando aqui