Era o Hotel Cambridge

Dia 16 de março estreia no circuito comercial um filme ímpar: Era o Hotel Cambridge, da diretora Eliane Caffé (diretora do incrível Narradores de Javé). Nessa lógica comercial, é necessário que as salas lotem na primeira quinzena, para que o filme se mantenha em cartaz. Vamos lotá-las, o filme merece. Mas não só ele. Também os movimentos de moradia, também a causa da moradia, também a causa da reabilitação de edifícios no centro, também o combate ao mau uso da função social da propriedade. Por isso, este texto, mais do que um artigo, é um convite.

Nestes tempos tristes, em que a intransigência, o individualismo, o desprezo pela democracia tomam conta do país, há um esforço dos conservadores para criminalizar os movimentos de moradia. Em uma sociedade que ainda não conseguiu superar suas heranças escravocratas, racistas, preconceituosas, faz sentido. A questão da moradia não é uma questão para as camadas de cima da nossa sociedade. Pois  ela só é visível para quem vive esse drama. Não para os que têm casa. Para o pobre, o desempregado, o imigrante recém-chegado e desamparado, a mulher vítima de violência que teve de sair de casa, a travesti que não encontra lugar para ser alguém e nem para viver, para todos estes, e muitos outros, o problema da moradia se escancara a cada noite que chega. Para os mais ricos, quando muito ele aparece pela janela do carro, rumo à uma praia, quando se cruza a periferia.

Por isso, a questão da moradia tende a ser invisível. As classes dominantes só sabem dela pelas notícias trágicas, de desmoronamentos em algum lugar distante da periferia, de manifestações de "radicais" que param o trânsito, de bombas e cassetetes que a PM manda ver em cima dos que ocupam edifícios vazios e sofrem reintegração de posse. Tendem a aceitar a versão oficial: tudo coisa de bandidos, de vagabundos, de gente "que não trabalha e acha que pode ocupar prédio por aí". 

A sociedade de elite prefere reproduzir desconhecimento do que inteirar-se das coisas para ajudar a pensar como poderíamos construir um país mais justo, igualitário, solidário. Mais fácil achar que todo mundo (que não seja do meu círculo social) é mesmo bandido ou vagabundo. Do que aprender sobre a Constituição e o Estatuto da Cidade, para saber que o direito à moradia é um dos direitos constitucionais fundamentais, e que prédios vazios não cumprem sua função social porque custam caro para a sociedade - para todos nós - ao desperdiçarem infraestrutura urbana (rua pavimentada, coleta de lixo, luz, água, saneamento, etc. etc.) pela sua falta de uso. Do que entender que há um déficit de mais de 6 milhões de moradias no Brasil, que não atinge vagabundos e bandidos, mas trabalhadoras e trabalhadores que fazem sua cidade funcionar, e se sujeitam a horas de deslocamento diário para vir de seu exílio na periferia para seus serviços. Mas os juízes em geral acham mais pertinente preservar o direito à uma propriedade frágil e irregular (o prédio abandonado), do que garantir o direito á moradia. "Desconhecem" as próprias leis, essa é a verdade.

É mais fácil achar que a ocupação de prédios vazios como instrumento de luta por parte dos movimentos é bandidagem do que parar para tentar entender por que no Brasil há cerca de 5 milhões de unidades habitacionais vazias nos nossos centros urbanos, quase o tamanho do déficit. É mais fácil achar que as pessoas não têm onde morar por sua própria culpa do que entender da história econômica do Brasil, em que as políticas sempre foram (excetuando-se a era Lula) essencialmente concentradoras da renda, alimentando nossa modernização com a pobreza da maioria. É mais fácil achar que quem não tem casa é porque é vagabundo, do que tentar entender como no Brasil as políticas urbanas produziram - propositalmente - cidades apenas para os ricos, sem dar espaço, nem alternativas de moradia, para os mais pobres.

É por isso que o Ministério Público (Federal e Estadual) vem tentando a qualquer custo dizer que os movimentos de moradia que ocupam prédios são apenas organizações políticas (petistas, subentende-se) que querem "furar fila" para beneficiar-se de casas sem esforço. Não entendem, ou não querem entender, que os movimentos hoje são uma parte legítima e importante da demanda por moradia, que muito auxilia o Poder Público ao organizar essa demanda, e que não existe uma "fila única" na política habitacional, desde a década de 80, quando se percebeu que as demandas são variadas e as respostas também, necessitando-se de diversas filas correspondentes às diversas situações. Não entendem que há movimentos de todas as matizes políticas, e muitos independentes, que se apegam à causa da moradia muito mais do que a alguma linha partidária. Não entendem que os movimentos ocupam prédios abandonados há décadas, por proprietários privados mas também pelos governos, para escancarar para a sociedade o mau uso que especuladores e proprietários duvidosos fazem deles, quando poderiam compor uma política habitacional consistente. Não entendem que, em tempos em que o crime organizado - esse sim verdadeiramente criminoso - tenta propositalmente se imiscuir com os movimentos para ampliar sua ação criminosa, aqueles que são verdadeiros e legítimos devem ser valorizados e fortalecidos como parceiros institucionais da política participativa de moradia. 

A mídia, evidentemente, que no Brasil há muito deixou de lado qualquer relação com o termo "jornalismo", faz sua parte na consolidação de uma imagem negativa dos movimentos. Eu mesmo tive minhas palavras deturpadas pela Folha de S. Paulo, que inventou título para reforçar a criminalização dos movimentos (leia aqui).

O filme de Eliane Caffé, feito coletivamente com outros profissionais de talento, mas também com os moradores, as lideranças do movimento e estudantes de arquitetura, mistura ficção com documentário para mostrar a outra face. Para mostrar a luta de pessoas como Carmen, a liderança do Hotel Cambridge, lutadora gigante e justa pela causa da moradia, e agora também atriz. Ou de imigrantes, recém-chegados à pauliceia, que encontram nesses movimentos e lideranças a solidariedade que o resto da sociedade não lhes dá.

O Hotel Cambridge, na vida real, é símbolo de uma luta e tanto. Vazio e abandonado, foi desapropriado pelo município por força e pressão do movimento que o ocupou. Foi colocado para fazer parte do Programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), ou seja, para entrar como contrapartida do município para que o Governo Federal desse o financiamento para sua reforma e reabilitação. Não achem que Dona Carmen e seu movimento furaram alguma fila: pelo contrário, habilitaram-se com outros candidatos para a licitação que escolheria, por pontuação, o movimento que receberia, no âmbito do MCMV Entidades, esse edifício público e o financiamento para recuperá-lo. E ganharam, legitimamente, não sem ter que afastar movimentos-fake da bandidagem que tentaram, no meio do caminho, apoderar-se do prédio pela força. Ganharam o título de propriedade e iniciarão uma bela reforma. Em pouco tempo, o que era um hotel abandonado será um prédio de moradia, alegre e cheio de história. Assim como já ocorreu no lindo predio todo reformado da Rua Conselheiro Crispiniano, outra conquista do movimento, sob a liderança de outro gigante, o Sidnei.

Era o Hotel Cambridge nos traz um pouco dessa realidade, dessa história de pessoas, de paulistan@s do bem, trabalhadoras e trabalhadores, cujo sonho nada mais é o de se integrar à cidade e oferecer à ela sua força e seu talento, morando no centro, perto de seu trabalho, dando uso e sentido para alguns dos milhares de prédios que ficam por aí, às moscas, ocupados por ratos e baratas, esperando alguma incerta valorização que algum dia quem sabe dará algum lucro para seu proprietário.

Era o Hotel Cambridge traz ao grande público, às classes médias e altas que vêem o problema de habitação pelo noticiário policial, um pouco da verdade sobre a questão: a de que esta é uma sociedade de gente do bem, batalhadora, infelizmente dominada por uma falta de solidariedade e compreensão para com os problemas dos mais pobres. 

O filme é uma aula de solidariedade. Por isso, lotemos as salas de projeção. Não se esqueça: dia 16 de março é a estreia nacional.

Link para o trailer

https://vimeo.com/203336440

Leia aqui a resenha de Abílio Guerra no site Vitruvius

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.183/6452